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Cachaça, preconceito e confrarias

Confraria Gaúcha da Cachaça

A despeito da opinião de alguns brasileiros acima de qualquer suspeita como, por exemplo, esta: “Queiram ou não queiram seus adversários, a cachaça é uma utilidade pública brasileira, dado histórico nacional, remédio que não se compra em farmácias e costuma produzir muito mais efeito que as drogas sofisticadas, com suas bulas herméticas. Não lhe faço apologia, de que não precisa, Registro sua presença cultural, seu fascínio sobre a mente do povo” (Carlos Drumond de Andrade) não há dúvidas de que a cachaça ainda é vista com bebida indigna para os “bacanas”. O nome dessa concepção não é outra senão preconceito. Sim, porque, desde o tempo em que nossa legítima bebida nacional foi descoberta, nossos exploradores sempre preferiram os vinhos e mesmo a bagaceira portuguesa à cachaça. Também por motivos econômicos a cachaça era defenestrada, eis que concorria com os vinhos e com a bagaceira vindas da Coroa. Não por acaso o Dia Nacional da Cachaça (13 de setembro) celebra a ‘martirização’ do líder nativo, Jerônimo Barbalho, que chefiou a Revolta da Cachaça, lá pelos idos de 1660.

Felizmente nas últimas décadas parece que acordamos do nosso sono histórico embalado no berço esplêndido de nossa aculturação, ou macaquice tupiniquim segundo a qual, tudo o que é importado tem todas as excelências e o que é nosso “não presta”. Dir-se-ia que é o “complexo de vira latas” de que falava Nelson Rodrigues. Mas apesar dos notáveis avanços também é inegável que, ao menos nos estados do Sul e Norte do país, ainda estamos longe de uma posição de prestigiamento da nossa bebida.

Nesse hiato uma alavanca de apoio no sentido do desenvolvimento de uma cultura de valorização da nossa bebida são as Confrarias. Nesse campo, inegavelmente a mais notória, ativa e prestigiada é a Confraria do Copo Furado, da cidade maravilhosa do
Rio de Janeiro. Mas ela possui coirmãs. Na capital Federal existe a Confraria da Cachaça do Brasil. Há pouco mais de quatro anos, na “capital brasileira do vinho”, Bento Gonçalves, fundamos a Confraria Gaúcha da Cachaça, que desde então, sempre manteve uma plêiade de cerca de trinta Confrades e reuniões mensais com regularidade britânica e muito aprendizado. Há poucos meses, emerge sua primeira “filial”, que denominamos “Seção” aqui na capital da Província de São Pedro (Rio Grande do Sul) e que na esteira da entidade-mãe a cada nova reunião de hedonismo e aprendizado vai agregando novos apreciadores. E, para nossa alegria ainda há pouco soubemos que em São Paulo outro grupo de apreciadores fundou sua Confraria inspirada na iniciativa e nos estatutos da Confraria Gaúcha. Existem também outras com um foco ligeiramente diferente, como a Confraria Feminina da Cachaça que inclui a gastronomia entre seus focos. Em Madrid está sediada a Confraria Europeia da Cachaça, não por acaso, presidida por um carioca.

De que modo as Confrarias podem ser parceiras na formação de uma nova cultura? Primeiro pelo estudo aprofundado e a sério de seus Confrades. Como diz o ditado: “Quem não tem competência não se estabelece”. Ou seja, Confrades minimamente conhecedores do universo da cachaça sempre atuarão a partir dessa nova perspectiva, quase que num trabalho de “formiguinha” mas dentro da teoria cabocla de que “é de grão em grão que a galinha enche o papo”, seja em suas interações sociais, sejam nos bares e restaurantes que frequentam e passam a “cobrar” a disponibilização de cachaças de qualidade e não somente das tradicionais aguardentes que só servem para fazer caipirinha.

A Confraria Gaúcha da Cachaça, seja pela entidade-mãe, seja pela noviça Seção da capital leva essa missão muito a sério e não perde oportunidade para novos aprendizados, visitando alambiques, participando de exposições, fazendo uso dos canais de divulgação das redes sociais e, brevemente, produzindo textos que contribuam para a formação de uma cultura, não só da apreciação, mas também da valorização desse produto que já nos dá motivo para dela nos orgulharmos, embora muitos cidadãos desinformados ainda não a tenha descoberto.

José Darci Soares – Presidente da Confraria Gaúcha da Cachaça.

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